Um ciclo

20 de janeiro de 2017


Na minha casa nós nunca demos muito valor à datas comemorativas, por isso que não sei ao certo quando é a páscoa ou quando cai a sexta-feira santa, por isso a gente nunca faz nada demais para comemorar o natal ou virar de um ano velho para um ano novo. Mas eu valorizo aniversários.

Acho que meus pais e minhas irmãs não tem esse carinho por aniversários tanto quanto eu tenho, mas é a única data comemorativa que eu aprendi a valorizar na minha família.
A gente nunca deixa passar em branco, tem sempre o famoso bolinho, a preparação de uns quitutes e separação da noite para comemorar com o aniversariante.
Quando éramos criança a aniversariante do dia não fazia nada o dia todo, era um dia especial, de folga. Quando uma das três fazia aniversário as três ganhavam presente (até ficarmos mais velhas e meu pai ver que isso era uma dor desnecessária no bolso dele). De certa forma a data que aquela pessoa nasceu, que sempre aparecia de novo depois de um ano, tinha algo de especial. E até hoje eu não consigo mais ver como um mero dia.

Deveríamos celebrar a vida de quem amamos todos os dias. Deveríamos sim. É bom distribuir amor, presente e carinho de forma gratuita sem razão aparente, mas eu também acho válido cada pessoa ter um dia especial para celebrar a sua própria vida.
Eu sou essa pessoa que compra chocolate e dá para um amigo quando o encontra. Eu sou essa pessoa que sempre comenta na foto do instagram do amigo falando que ele é lindo e querido. Sou essa pessoa que quando lembra de tirar foto com alguém querido, posta a foto dizendo o quanto a ama. Eu sou essa pessoa que ama dizer "eu te amo" sem ter qualquer motivo aparente. Gosto de fazer todas essas coisas boas de serem feitas. 
Mas eu gosto de ter uma data específica para mandar uma mensagem calorosa para quem eu amo, eu gosto de ter uma data para eu fazer isso, eu gosto de pensar em um presente que tenha a ver com aquela pessoa e muita das vezes fazer ele à mão ou comprar vários e juntar e criar algo que eu sei que vai agradar quem eu estou presenteando, não porque é mais uma posse, mas porque é algo que eu escolhi dar à ela como forma de afeto.

Por isso eu valorizo aniversários.

Mas costumo entrar em crise com o meu, não de pensar em idade, ou crises corriqueiras que o ser humano costuma ter com essa data. Entrar em crise no sentido de que por mais que eu ame essa celebração eu nunca consigo celebrar o meu, não se depender de mim. Eu nunca preparei uma festa de aniversário para mim, por mil motivos. Eu raramente saio no dia, parte porque eu amo ficar à noite em casa só com a minha família e parte porque eu nunca consigo fazer nada, apesar de todo ano querer fazer alguma coisa.

Esse ano minha irmã Ester foi precipitada e criou um evento no facebook um mês antes, chamando alguns poucos dos nossos amigos queridos para irem celebrar meu aniversário comigo na Mureta da Urca. A Mureta da Urca é um lugar que frequentei muito durante a minha faculdade, um lugar com toda a vibe do Rio de Janeiro em si, que tem um pôr-do-sol maravilhoso, super democrático quanto ao valor (você senta ao ar livre e come o que quer, se quiser, num bar ou numa padaria que tem ali perto), e que é um local incrível para se estar com gente querida.
Eu agradeci à ela por ter feito isso, porque uma certeza que tenho é que teria voltado atrás nessa ideia, dias antes do dia 25 de janeiro chegar e terminaria essa quarta-feira em casa só com minha família, como todo ano.

Mas hoje dia 18 de janeiro, faltando uma semana ainda para o meu aniversário eu estou escrevendo isso tudo e pensando que fico feliz da Ester já ter criado esse evento, porque eu quero muito de verdade comemorar mais um ano semana que vem, de uma forma diferente daquilo tudo que já fiz até hoje.
Vou fazer 23 anos (sentindo ainda que farei 21), mas pela primeira vez me sentindo velha (mesmo  continuando sendo sempre a mais nova nas minhas rodas de amigos).

Fazer 23 anos não é fazer 25, logo não é ter o direito de começar a se sentir velha porque afinal você está mais próxima dos 30, porque eu ainda estou mais próximo do 20 mesmo. Mas eu estou.

Eu sai da faculdade. Eu tenho um trabalho. Eu já vou tirar férias, de novo. Eu me preocupo com poupança. Eu penso no meu mestrado. E começo a me questionar se ainda vai demorar muito para eu sair da casa dos meus pais.
Além disso eu 2015 e 2016 foram uns anos densos. Foi como eu escrevi na minha newsletter:

"2015 foi um ano punk demais e trouxe um saco cheio de aprendizado, mas de forma dura, pesada, ele só veio e tacou tudo em cima de mim. Em 2016 eu consegui pegar esse peso e ir desfazendo em partes menores para digerir tudo como é preciso ser digerido e tirei aprendizado dali. 
Aprendi a lidar melhor com a vida e suas inseguranças, as coisas boas e ruins que ela nos dá. Aprendi a lidar melhor com as pessoas. Aprendi a lidar melhor com o meu trabalho. Aprendi a lidar melhor com os meus amigos e comigo mesma."

Em todos os meus aniversários eu senti que eu estava mais madura um pouco, senti que havia crescido e me encontrado (ou não) um pouco mais, algo natural da vida, algo esperado que a gente sinta todo ano. Mas agora, eu parei para sentir que vou fazer aniversário, veja bem, e eu me senti verdadeiramente madura. Não um pouco mais, não que eu tenha crescido mais um tico. Não, eu senti que eu cresci. Muito graças à 2015 e 2016, mas muito também porque finalmente me encontrei depois de anos de aprendizado. Parece que finalmente eu olho para uma Sarah em que eu me encontrei, sei com quem estou falando, a que ponto estou da vida. Uma Sarah que consegue olhar para a vida e seus vários pontos e compreendê-la (ela, a vida) um pouco melhor mesmo com o mar de incertezas que cada ponto traz em si. Uma Sarah que olha para Deus e consegue ter um relacionamento muito mais saudável e prazeroso. Uma Sarah que eu olho e conheço quase que cada ponto, gostos, prazeres, incertezas, qualidades e defeitos e consigo encarar e analisar sem ter uma briga interna mas amando como ela é e respeitando cada processo existente ali dentro.

Se sentir madura traz um peso de se sentir um pouco velha, por isso mesmo que eu sendo ainda tão nova fazendo só 23 anos, estou me sentindo velha.
Com amigos que casaram e amigos que falam sobre gravidez e sobre os próprios filhos.
Me sinto velha pensando no preço de quanto custa um apartamento e de que ainda bem que tenho uma carteira assinada mesmo sendo nova porque Jesus a aposentadoria.

Mas mais que essas coisas que nos validam como adultos, me sinto velha pelo tanto de experiências que já passei na vida e pela forma como a encaro hoje em dia.



Eu poderia escrever esse texto na minha newsletter (e talvez eu o leve para lá) mas eu achava que esse espaço aqui tinha mais a ver com esse misto de sentimentos que tentei traduzir e é um espaço que eu me sinto mais confortável para vir reler quando fizer 25 anos e ver que eu estava era muito nova ainda e sentido de forma ansiosa os sentimentos futuros que ainda me aguardavam.

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