riacho

sexta-feira, maio 05, 2017

Se ela desse meia volta e olhasse o reflexo do espelho, veria como um riacho.
A questão estava na falta de percepção no olhar das pessoas.
À primeira vista, entre o verde grotesco, ele era apenas um pequeno riacho cru em seu início, sem grandes feituras. Para um olhar atento, um pouco mais à frente se via as ondulações que se formavam e se desfaziam em águas mais largas, e mais largas, e mais largas. Bastava apenas acompanhar o que o riacho tinha a oferecer e estava disposto a mostrar caso o outro tivesse sensibilidade ou interesse, coragem talvez, por estar lindando com algo que não mostra de primeira toda sua beleza.
O riacho ao se desnudar era de beleza tal qual a nossa natureza imaginária, era grande, forte, quente por dentro, destemido em seu avançar, volumoso não apenas externamente mas por si só. Então se descobria que ele era cativante, pois quando compreendido em sua totalidade era algo realmente belo de se ver e gracioso de se estar perto.
Seu reflexo era o de um riacho.
Amizade

Drops semanais (ou quase)

sábado, abril 15, 2017
Estava vendo essas fotos e pensando que fazia posts com os passeios que dou por aí com uma frequência muito maior do que faço atualmente, acredito ser porque costumo compartilhar uma boa parte deles no instagram e também estava sem câmera fotográfica.

Agora eu tenho câmera de novo (yay!) e estou dando uma descansada de instagram, então meio que sem pensar muito vim parar aqui fazer esse post recheadaço de fotos.

Eu vivo querendo tempo para ficar em casa, sou essa pessoa que torce para o outro cancelar compromisso porque amo ficar de boas no meu cafofo. Mas também sou essa pessoa que vive marcando rolê porque amo aproveitar o Rio e sair com gente querida, e aí quando paro em casa amo ao mesmo tempo que me questiono porque não estou por aí ~vivendo~ pois é, não tem como entender. Amo conhecer lugares novos e voltar nos que já amo e anseio e desejo ficar em casa fazendo nada, então vivo nesse conflito desejando um querendo o outro haha.

Abril é cheio de feriado e esse primeiro eu consegui me dar as duas coisas que sempre quero, fiquei sexta feira em casa só descansando a mente e o corpo e hoje, sábado, sai. Fui com uma amiga e com a Debs no MAC (Museu de Arte Contemporânea) e no Boulevard Olímpico. Nunca tinha ido em ambos, como boa museóloga e apreciadora de arte (especialmente moderna) sempre quis ir no primeiro, já no segundo nunca fiz muita questão por todas as questões de gentrificação que esse espaço envolve.

Basicamente andamos muito e tiramos muita foto. Então fica aqui registrado esse dia como um falso drop semanal hehe.
































Thally <3


Momentos

Cansei

quarta-feira, abril 12, 2017
Das repetições.
Das interrupções.
Das pausas longas.
Dos não entendidos.
Das grandes dúvidas.
Do não assumir.
Do não desculpar.
Do não se importar.
Do não saber.
Da falta de sentimentos.
Dos desajustes.
Do não encaixe.
Da falta de contato.
Da falta do tocar.
Do não satisfazer.
Da satisfação rápida.
Do não aprofundar.
Do me negar.
Do nunca ser bom o suficiente.

Da falta do cuidar
Da falta do partilhar.
Do não transbordar.
Do diminuir.
Do não se responsabilizar.
Da pequenez.
Do limitar.
Das culpas.
Do ser eu.
Do não compreender.
Do faltar.
Do não dar.
Do não poder.
Da omissão.
Do enrolar.
Do não se esforçar.
Da sinceridade doída.
Do incômodo constante.
Do não ser bom o suficiente.

Do medo.
Da ansiedade.
Do esperar.
Do pedir.
Das não referências.
Do julgar.
Do não julgar.
Dos resquícios.
Da falta de querer.
Do quando bem querer.
Da dor.
Das insônias.
Das inquietações.
Do nunca saciar.
Do comodismo.
Do pouco.
Do fazer mal.
Da falsa sensação.
Do me culpar.
Da não construir.
Do ser bom o suficiente.

Da falta de amor próprio.

Posso te conhecer melhor?

terça-feira, abril 11, 2017
Hey vocês!

Eu escrevo nesse blog vai fazer 7 anos (no fim do ano) e por aqui já passou muita gente, vejo isso através dos comentários. Mas nos últimos anos os números de comentários foram diminuindo cada vez mais (raro demais quando recebo um!) mas o número de acesso aumentou de forma absurda, daí bate a curiosidade, quem são vocês? De onde vocês vem? Para onde vão?

Mas falando sério, gostaria muito de te conhecer e saber mais sobre você e seu interesse nesse espaço, então você fala comigo ao invés de só me ouvir falar? Eu vou amar.

É só tirar um tempinho para preencher esse formulário que eu criei pra isso, pode ser? Pode responder clicando nesse link ou no formulário abaixo.

Obrigada!

Estudos

Bolhas, privilégios e profissões

quinta-feira, abril 06, 2017


Fiquei sem escrever por aqui esses dias né, mas lendo essa newsletter da Anne T. Donahue eu fiquei com vontade de falar sobre algo e escrevi esse texto para a minha newsletter e resolvi trazer para o blog também, porque queria ter ele aqui e queria ampliar o debate.

Meu objeto de estudo é museu social. Durante meu período dentro da faculdade, estudei, pesquisei e trabalhei em vários, entre eles eu sempre acabava voltando em um que se tornou o principal pra mim. Na minha pesquisa final de curso eu voltei nele e conversei com a responsável por um projeto incrível que eles fazem com os adolescentes e jovens da comunidade.

Eu gosto e trabalho com museu social porque o objeto principal deles não é um acervo material mas sim as pessoas do local onde eles estão inseridos. E o trabalho desse projeto que fui pesquisar é exatamente esse, explicar e esclarecer na mente dos jovens que eles são construtores da História tanto quanto qualquer figura histórica, e que eles tem voz e um alcance maior do que eles podem imaginar dentro de onde eles estão.

O projeto faz um trabalho maravilhoso com eles, mostrando que o mundo é bem maior do que aquele que vemos dentro dos nossos colégios de bairro, sendo assim, eu imaginei que muitos deles fossem construir a própria história diferente do que as suas famílias vinham construindo até então. Aqui falo especificamente sobre construir a vida profissional. Terminar o ensino médio já é algo difícil de alcançar para as gerações que vieram antes desses jovens, sendo assim, o que se espera é que eles consigam terminar a escola, e eu sonhava que eles conseguissem entrar em uma faculdade.
A realidade é que a gente vive em uma bolha, chegar em uma universidade é a opção óbvia para todos os jovens do meu mundo, que estudaram comigo, os meus amigos. Não chegar na universidade pode até ser considerado fracasso para alguns. Se eu sair da minha bolha eu vejo que do meu lado, do nosso lado mesmo, existem outros mundos bem distintos e que podem nos surpreender. A gente vive e cresce num círculo social que é igual à nossa realidade quanto à educação, situação econômica, valores, moral e tudo mais. Mas a gente não para para pensar sobre isso e questionar como são as outras realidade que estão sim do nosso lado. Na minha cidade, mas fora da minha realidade.

Eu saí da minha bolha em diversos momentos da minha vida, e encontrei realidades muito, mas muito distintas da minha, o que mudou muita coisa em mim e como enxergo as pessoas e a vida. Mas eu sou uma em um milhão, afinal quem mais do meu circulo social, do seu circulo social, já saiu da própria bolha, na prática? Por que eu vou passar no bairro pobre da minha cidade se não está no meu trajeto, ou virar amiga e frequentar a casa de alguém que mora lá se essa pessoa não faz parte do meu círculo social?
Exato, né? Daí a gente não se aproxima desse mundo nunca. Só conhece de histórias que ouvimos ou lemos.

Mas em bairros da minha cidade, nessa realidade literalmente vizinha da minha, existem pessoas vivendo histórias e vidas que nem sequer eu sonho em viver do lado de cá. E eu, e você, a gente não faz ideia.



No nosso mundo a gente vende o discurso do faça o que você ama, como profissão, e você nunca estará realmente trabalhando, ou você ao menos será feliz no seu trabalho.
Vocês percebem o tamanho do nosso privilégio ao poder escolher um curso universitário (1º privilégio, chegar até aqui) baseado no que a gente gosta e não no que nos dará retorno financeiro (2º privilégio)?
A gente só pode escolher isso porque temos o financeiro dos nossos pais como nossa base de sustento. Quantas pessoas podem contar com o dinheiro dos pais como base de sustento enquanto estiverem na faculdade, quando sairem da faculdade e não arrumarem emprego, e se arrumarem emprego mas pagar mal?
A gente sabe que é um privilégio poder optar por seguir nossos sonhos, certo?

Quando eu fui conversar com a responsável por esse projeto com jovens no museu, mesmo já tendo conhecido esses outros mundos distantes do meu, eu ainda assim fui com inocência perguntando quantos deles haviam chegado na universidade e conseguido trabalhar com algo que lhes dessem algum prazer e/ou um retorno financeiro maior. E a resposta foi: nenhum. Isso foi há cerca de dois anos atrás, e claramente ainda continuo a me assustar com essa resposta. Foi a realidade batendo de forma escancarada, com toda força possível e sem qualquer aviso prévio na minha cara, assim, na lata. Logo em mim que achava que já conhecia essas realidades que não são a minha. Que já subi várias favelas, convivi e convivo com pessoas dentro dessa realidade educacional distinta da minha, já entrei em barracos e lido frequentemente com crianças que moram neles. Como eu ainda era tão inocente?

Mesmo que esses jovens do museu tenham uma noção de realidade ampliada, comparada com seus amigos de colégio, e entendam a importância de um ensino superior na sociedade em que eles vivem, a realidade deles praticamente os força a arrumar um emprego ao sair do colégio porque eles precisam, e porque especialmente, eles querem, para poder ajudar os pais em casa, de forma imediatista sim. E os próprios pais, dentro da sua percepção de realidade e de bom e ruim (e quem somos nós para julgá-los?) vê o filho finalmente poder trabalhar, como um alívio ao saber que a renda da casa irá aumentar.

A gente não precisa se preocupar com isso quando pensa em seguir nossos sonhos.

Junto à isso eu começo a me questionar até que momento o discurso de seguir nossos sonhos é válido.
Dar duro em uma grande empresa, acordando cedo, dormindo tarde, em uma jornada de trabalho pesada, para crescer de cargo em cargo e ganhar um salário alto para sustentar bem a família foi o que nossos pais (realmente os nossos, dentro da nossa bolha) fizeram e conseguiram nos dar um conforto quanto ao dinheiro, suficiente, para optarmos em seguir um caminho diferente do deles, com, pelo menos, mais alegria dentro dessa jornada pesada.

Mas trabalho tem que trazer felicidade? Não é só uma forma de ganhar a moeda de troca que rege o mundo?

Eu sinto um certo peso em cima da gente, se a gente opta em não seguir uma carreira que mude o mundo, ou se a gente opta em seguir uma carreira que almeja mudar o mundo. Um peso quando a gente tenta fazer algo que nos agrade como profissão e não recebe o retorno financeiro que consideramos suficiente pra viver uma vida razoavelmente boa. Um peso quando a gente opta por uma carreira que nos faça bem mas não arruma emprego. Um peso quando a gente opta por desistir da nossa carreira e entrar no mercado de trabalho que tiver vaga. Quando decidimos que vamos só trabalhar pesado mesmo, igual nossos pais fizeram, para conseguir ganhar bem, igual nossos pais conseguiram, e conseguir ter uma casa com uma família, não igual nossos pais tiveram antes dos 30, mas pelo menos antes dos 40. E quem vai nos julgar?

A gente não deveria tirar um peso para impor outro, certo? 
Essa questão de profissão dá várias aberturas para aprofundamento de debate, e inclusive tem textos, peças, filmes, músicas, podcasts incríveis sobre isso. Vale a pena começar a ampliar os questionamentos e absorver mais sobre esses debates.

Eu li essa newsletter da Anne T. onde ela levanta vários questionamentos, que ela fez como resposta à um email cheio de dúvida que ela recebeu de uma leitora, me perguntando se os conselhos dela eram os melhores que ela poderia dar para aquela menina, se elas duas tinham noção do tanto de privilégio que elas tinham ao falar sobre profissão e carreira. A Anne basicamente disse que a gente pode se jogar nas várias opções que temos na nossa frente e tentar e arriscar, ver o que dar certo. Não tem uma linha única que todos vamos seguir e ficarmos satisfeitos no final. Não sei se elas sabem que o simples fato delas, e nós, termos tantas opções já um privilégio. Ao fim, achei a Anne bem coerente com tudo, porque ela não tira um peso e impõe outro, apenas diz que devemos respeitar a escolha de cada pessoa do nosso lado, sem julgar, porque cada um sabe de ti e não tem como nós sabermos pelo outro, só sabemos do nosso mesmo. Acho que basicamente devemos parar de colocar cobrança em ombro alheio, ou se preocupar demais com que vão achar das nossas escolhas.

O Ed Rene conta em um dos seus livros, que um homem trabalhava como vendedor em uma loja e por lá passaram várias pessoas e ele era a única que continuava ali. Uma dessas pessoas voltou na loja anos depois, já em outra área, ~bem sucedido~ e sentiu pena daquele vendedor continuar lá, então se sentiu no direito de poder questionar essa escolha e comodismo, ele recebeu como resposta um: eu ganho o suficiente para o que eu quero ter na minha vida, pago todas as minhas contas, não vejo porque mudar de emprego ou me esforçar para virar gerente.
Se é suficiente para ele, não deveria ser para nós?



Depois de ter feito minha faculdade em que eu faço algo de produtivo e bom pro mundo, e ter entrado do mercado de trabalho dentro da minha área (!!!!!!), eu começo a me questionar se todo o esforço vale a pena. Eu não consigo me imaginar tendo feito outra faculdade, mas me questiono se o esforço para me manter na área vale a pena. E se não valer, o que eu devo fazer? Outras coisas que me agradam? Sair da minha área e ir para qualquer outra é me vender para o mercado? Mas já não estamos vendidos para ele?
Continuar na área da Cultura também me soa muito como um ato de resistência, mas as vezes cansa, e quem vai poder me julgar?

Eu vou continuar na minha área, eu tenho certeza disso, mas isso não muda o fato de todos os questionamentos acabarem vindo na minha mente. 
Nós temos noção do quanto esse discurso de seguir nossos sonhos é carregado de privilégios (e tantas, mas tantas outras coisas) e que as vezes correr tanto atrás de um trabalho que nos faça feliz pode ser cansativo de tantas maneiras?

Eu comecei falando de bolha e acabei falando de privilégios e profissão porque na minha mente (e na realidade também) uma coisa está ligada à outra e foi como fez sentido para mim escrever.



#Indicações

Eu ensaio uma newsletter sobre ser negra e mulher mas ainda viver num mundo com privilégios tem uns dois meses mas nunca sento e escrevo e me pergunto se um dia vou ter essa coragem de fazê-lo, caso eu nunca tenha compartilho aqui algumas indicações relacionadas à esse tema, ok?

#Livro

O sol é para todos - Pelo amor de Deus vocês já leram esse livro? Mas tenham amor próprio e vão ler esse livro, por favor! Ele é todo contado pelo olhar de uma criança, menina, que acompanha de longe (mas também de perto?) o caso de uma denúncia, baseada em racismo, na cidade pequena dela, ao mesmo tempo em que o pai dela defende o negro acusado. É literalmente de fazer chorar. Racismo dói.

Americanah - É um livro da Chimamanda Ngozi Adichie, que conta a história de Ifemelu, uma nigeriana, que foi morar nos Estados Unidos, mas resolve voltar para a sua terra natal, a Nigéria. A narrativa é muito boa, e trata de forma sútil mas forte como é ser uma negra de pele escura, com cidadania africana, na Grande América. Minha vontade de visitar algum país do continente africano e conhecer um pouco mais das minhas origens só aumentou depois de ter lido esse livro.

#Podcast
Por que não temos sobrenomes africanos ou indígenas? - Falando sobre origens, esse podcast do Nexo fala sobre sobrenomes africanos e indígenas no Brasil, cadê eles?
Talvez vocês nunca tenham pensado nisso, mas é difícil saber a minha origem africana e isso não é em vão. Eles falam um pouco sobre isso e outras coisas. É curtinho mas vale super a pena ouvir.


#Filme
Hidden Figures -  Um dos indicados ao Oscar, esse filme narra a história de mulheres negras que trabalharam na Nasa durante a corrida espacial que houve entre os Estados Unidos e Rússia durante a Guerra Fria. Imagina ser mulher em um ambiente de trabalho cercado de homens, e imagina ser negra nos anos 60 nos Estados Unidos, pois é. Eu me emocionei mais do que esperava com esse filme, vale a pena ver por ser baseado em fatos reais.

#Link
Ela tinha 13 anos de idade - Mulher negra falando sobre crescer na periferia, e sobre a violência do Estado, em especial com pobre e negro.

O destino das mulheres pobres e negras no Brasil de Temer - "A redução de direitos e de políticas públicas tem sido a medida adotada pelo governo federal como justificativa para o ajuste fiscal. A lógica é simples e trágica: menos direitos e políticas sociais, mais pobreza e desigualdade".

Ritalina e vestibular - Alguém tem dúvida que nosso sistema educacional é atrasado e que a nossa forma de entrada nas universidades públicas precisa ser revisto? Esse texto apresenta pesquisas e estudos que tratam da relação do uso de medicamentos (drogas) por adolescentes e jovens no período escolar, especialmente o de vestibular, e como essa relação está ficando cada vez mais tensa.


#Poesia feminista
Pra finalizar essa edição, a Thami fez um post sobre publicações feministas no Issuu, eu entrei lá e me perdi um pouco, entre as revistas que eu li, a que mais me chamou atenção foi a F WORD VOL. VI, e dentre os vários textos que eu li por lá o que eu mais amei foi esse, abaixo:

The First Time I Heard Brown Girls Read Poetry

"I’ve sat in a mosque
many a time,
always sure
I was the odd
brown girl out,
too busy hiding
in the corner,
fidgeting with the sleeve
of my shalwar,
too ashamed at my skin
to hear the imam’s words–
but here in this tiny room
with its wooden floors
and backless plastic chairs,
I finally feel
the divinity
that everyone else
in that house of God
must have.
I hear not only
a brown girl
like me,
but the daughter
of an immigrant
like me,
a Muslim
like me,
Pakistani
like me,
Punjabi
like me.
These brown girls
are reciting their verses
but when our eyes connect,
I swear they’re speaking
only
to me.
“Sister, I see
the hunger in your eyes,
your starving
need for knowledge
on how to exist
in your brown body
in your racist country
that hates your brown body
Sister, I know
your heritage is born
of bloodshed and bigotry,
I know of the shame
you carry for your ancestors,
the even heavier burden
you have to bear
when you laugh
with your Bengali friends,
the way you hope
they don’t
hate you.
Sister, I remember
the way I spoke Urdu
under my breath
whenever my parents
came to pick me up at school,
 how I wish I shouted it then
so I could recall it
now.
Sister, I share
this struggle of claiming
the nation of my father
and the nation where I live,
the fight over the word ‘American’
which everyone always demands
of us like we don’t deserve it.
Sister, I too
am learning
how my faith and my identity
do not cancel each other out,
that no one
can take my deen
away from me.
Sister, I relish
this graceful existence
we get to live
with all of its triumphs
and all of its sorrows.
Sister, I see you
and I love you
and I am you.
You are not alone,
ameen.”

Briana Naseer
Mudança

Um ciclo

sexta-feira, janeiro 20, 2017

Na minha casa nós nunca demos muito valor à datas comemorativas, por isso que não sei ao certo quando é a páscoa ou quando cai a sexta-feira santa, por isso a gente nunca faz nada demais para comemorar o natal ou virar de um ano velho para um ano novo. Mas eu valorizo aniversários.

Acho que meus pais e minhas irmãs não tem esse carinho por aniversários tanto quanto eu tenho, mas é a única data comemorativa que eu aprendi a valorizar na minha família.
A gente nunca deixa passar em branco, tem sempre o famoso bolinho, a preparação de uns quitutes e separação da noite para comemorar com o aniversariante.
Quando éramos criança a aniversariante do dia não fazia nada o dia todo, era um dia especial, de folga. Quando uma das três fazia aniversário as três ganhavam presente (até ficarmos mais velhas e meu pai ver que isso era uma dor desnecessária no bolso dele). De certa forma a data que aquela pessoa nasceu, que sempre aparecia de novo depois de um ano, tinha algo de especial. E até hoje eu não consigo mais ver como um mero dia.

Deveríamos celebrar a vida de quem amamos todos os dias. Deveríamos sim. É bom distribuir amor, presente e carinho de forma gratuita sem razão aparente, mas eu também acho válido cada pessoa ter um dia especial para celebrar a sua própria vida.
Eu sou essa pessoa que compra chocolate e dá para um amigo quando o encontra. Eu sou essa pessoa que sempre comenta na foto do instagram do amigo falando que ele é lindo e querido. Sou essa pessoa que quando lembra de tirar foto com alguém querido, posta a foto dizendo o quanto a ama. Eu sou essa pessoa que ama dizer "eu te amo" sem ter qualquer motivo aparente. Gosto de fazer todas essas coisas boas de serem feitas. 
Mas eu gosto de ter uma data específica para mandar uma mensagem calorosa para quem eu amo, eu gosto de ter uma data para eu fazer isso, eu gosto de pensar em um presente que tenha a ver com aquela pessoa e muita das vezes fazer ele à mão ou comprar vários e juntar e criar algo que eu sei que vai agradar quem eu estou presenteando, não porque é mais uma posse, mas porque é algo que eu escolhi dar à ela como forma de afeto.

Por isso eu valorizo aniversários.

Mas costumo entrar em crise com o meu, não de pensar em idade, ou crises corriqueiras que o ser humano costuma ter com essa data. Entrar em crise no sentido de que por mais que eu ame essa celebração eu nunca consigo celebrar o meu, não se depender de mim. Eu nunca preparei uma festa de aniversário para mim, por mil motivos. Eu raramente saio no dia, parte porque eu amo ficar à noite em casa só com a minha família e parte porque eu nunca consigo fazer nada, apesar de todo ano querer fazer alguma coisa.

Esse ano minha irmã Ester foi precipitada e criou um evento no facebook um mês antes, chamando alguns poucos dos nossos amigos queridos para irem celebrar meu aniversário comigo na Mureta da Urca. A Mureta da Urca é um lugar que frequentei muito durante a minha faculdade, um lugar com toda a vibe do Rio de Janeiro em si, que tem um pôr-do-sol maravilhoso, super democrático quanto ao valor (você senta ao ar livre e come o que quer, se quiser, num bar ou numa padaria que tem ali perto), e que é um local incrível para se estar com gente querida.
Eu agradeci à ela por ter feito isso, porque uma certeza que tenho é que teria voltado atrás nessa ideia, dias antes do dia 25 de janeiro chegar e terminaria essa quarta-feira em casa só com minha família, como todo ano.

Mas hoje dia 18 de janeiro, faltando uma semana ainda para o meu aniversário eu estou escrevendo isso tudo e pensando que fico feliz da Ester já ter criado esse evento, porque eu quero muito de verdade comemorar mais um ano semana que vem, de uma forma diferente daquilo tudo que já fiz até hoje.
Vou fazer 23 anos (sentindo ainda que farei 21), mas pela primeira vez me sentindo velha (mesmo  continuando sendo sempre a mais nova nas minhas rodas de amigos).

Fazer 23 anos não é fazer 25, logo não é ter o direito de começar a se sentir velha porque afinal você está mais próxima dos 30, porque eu ainda estou mais próximo do 20 mesmo. Mas eu estou.

Eu sai da faculdade. Eu tenho um trabalho. Eu já vou tirar férias, de novo. Eu me preocupo com poupança. Eu penso no meu mestrado. E começo a me questionar se ainda vai demorar muito para eu sair da casa dos meus pais.
Além disso eu 2015 e 2016 foram uns anos densos. Foi como eu escrevi na minha newsletter:

"2015 foi um ano punk demais e trouxe um saco cheio de aprendizado, mas de forma dura, pesada, ele só veio e tacou tudo em cima de mim. Em 2016 eu consegui pegar esse peso e ir desfazendo em partes menores para digerir tudo como é preciso ser digerido e tirei aprendizado dali. 
Aprendi a lidar melhor com a vida e suas inseguranças, as coisas boas e ruins que ela nos dá. Aprendi a lidar melhor com as pessoas. Aprendi a lidar melhor com o meu trabalho. Aprendi a lidar melhor com os meus amigos e comigo mesma."

Em todos os meus aniversários eu senti que eu estava mais madura um pouco, senti que havia crescido e me encontrado (ou não) um pouco mais, algo natural da vida, algo esperado que a gente sinta todo ano. Mas agora, eu parei para sentir que vou fazer aniversário, veja bem, e eu me senti verdadeiramente madura. Não um pouco mais, não que eu tenha crescido mais um tico. Não, eu senti que eu cresci. Muito graças à 2015 e 2016, mas muito também porque finalmente me encontrei depois de anos de aprendizado. Parece que finalmente eu olho para uma Sarah em que eu me encontrei, sei com quem estou falando, a que ponto estou da vida. Uma Sarah que consegue olhar para a vida e seus vários pontos e compreendê-la (ela, a vida) um pouco melhor mesmo com o mar de incertezas que cada ponto traz em si. Uma Sarah que olha para Deus e consegue ter um relacionamento muito mais saudável e prazeroso. Uma Sarah que eu olho e conheço quase que cada ponto, gostos, prazeres, incertezas, qualidades e defeitos e consigo encarar e analisar sem ter uma briga interna mas amando como ela é e respeitando cada processo existente ali dentro.

Se sentir madura traz um peso de se sentir um pouco velha, por isso mesmo que eu sendo ainda tão nova fazendo só 23 anos, estou me sentindo velha.
Com amigos que casaram e amigos que falam sobre gravidez e sobre os próprios filhos.
Me sinto velha pensando no preço de quanto custa um apartamento e de que ainda bem que tenho uma carteira assinada mesmo sendo nova porque Jesus a aposentadoria.

Mas mais que essas coisas que nos validam como adultos, me sinto velha pelo tanto de experiências que já passei na vida e pela forma como a encaro hoje em dia.



Eu poderia escrever esse texto na minha newsletter (e talvez eu o leve para lá) mas eu achava que esse espaço aqui tinha mais a ver com esse misto de sentimentos que tentei traduzir e é um espaço que eu me sinto mais confortável para vir reler quando fizer 25 anos e ver que eu estava era muito nova ainda e sentido de forma ansiosa os sentimentos futuros que ainda me aguardavam.

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