Sobre não estar sozinha quando você está

20 de outubro de 2016

Eu sei que tem muito texto por aí sobre isso, mas eu precisava escrever nesse espaço para mim mesma. Então estou me permitindo fazer isso.


Em janeiro de 2015, quando eu não sabia que muita coisa ainda iria acontecer na minha vida nesse ano, quando ainda não era véspera do meu aniversário, quando o Yuri ainda não tinha embarcado para Portugal, nós dois estávamos na praia de Ipanema, era sol, a água estava ótima e estávamos os dois na nossa sintonia. Eu me formando dali a pouco, o Yuri se formava dali a pouco e a gente estava sempre a falar sobre o futuro.
Como boa pessoa de humanas, eu sonhava em me dar uma viagem pela América Latina como presente de formatura, o Yuri sonhava em se dar uma viagem pela América Latina com razões suficientes dentro de si. A gente pensou a mesma coisa, só que ao contrário. Eu pensei em começar por Montevidéu e terminar em Buenos Aires. O Yuri pensou em começar por Buenos Aires e terminar por Montevidéu. Isso talvez porque eu tivesse mais vontade de conhecer o Uruguai que a Argentina e ele talvez porque tivesse mais vontade de conhecer a Argentina que o Uruguai na época (e até isso mudou). A gente estava com a sintonia afinada porque pensamos no mesmo roteiro, no mesmo período do ano, sem nem precisar debater sobre.

Dali uns dias, eu estava conversando com ele pelo messenger, saí para trocar de roupa e quando volto ele está berrando meu nome o tanto quanto é possível fazer isso escrevendo, ou seja, usando caps lock e muitas letras repetidas. Tinha uma promoção de passagem, exatamente para onde queríamos, com dias suficientes para fazermos nosso roteiro, foi um tanto de mensagens como "vamos comprar?" "AI MEU DEUS, TÁ BARATO, VAMOS?" "você tem cartão?" "COMPRAMOS!!!!". No caminho do tempo, mesmo o Yuri estando em Portugal, ele parecia mais animado em sua próxima viagem comigo do que na que ele estava fazendo naquele momento, e eu ia me empolgando do outro lado, me apaixonando cada vez mais pelo nosso roteiro.

Mas acontecem coisas, a vida sabe? Minha vida mudou tanto, tanto... E nesse caminho a viagem ficou totalmente impossível de ser realizada. Impossível. Eu custei a acreditar que tinha perdido o dinheiro da passagem. O Yuri não foi sem mim, não queria e talvez nem pudesse também.

Eu fiquei com o roteiro na mente e veio 2016. Queria fazer umas viagens em 2016, mas basicamente não tinha companhia pra nenhuma. Arrumei com muito custo pra primeira, Paraty. Eu já estava pensando nas minhas férias, de novo, nessa altura e conversei sobre isso com a Karla, uma portuguesa que conheci em Paraty e estava a viajar pelo Rio de Janeiro sozinha. Disse que queria ter a mesma coragem pra fazer igual nas minhas férias, ela então me perguntou se eu andava sozinha pelo Rio de Janeiro, disse que sim, pra cima e pra baixo, ela me respondeu com uma pergunta "Se já andas sozinha por uma das cidades mais perigosas que há, qual o medo de andar sozinha por outras pelo mundo?", a Karla não sabe, mas isso foi uma chave no meu cérebro, era a mais pura verdade escancarada ali, na minha cara.

Logo depois de Paraty tinha São Paulo e eu estava sozinha de novo. Dessa vez tinha a Bruna que viaja sozinha por aí desde antes de entrar na minha vida. Era só São Paulo e a Bruna veio me lembrar que eu começaria fazendo minha primeira viagem sozinha por um local muito simples, ela tinha ido pra outro continente, e tinha dado tudo certo. Fui pra SP então. E logo depois, no outro final de semana, literalmente, era Uberlândia, e lá fui eu sozinha de novo. Ok que do outro lado eu tinha uma rede de amigos (e um amigo em especial) esperando por mim, mas durante o processo estava sozinha, certo? Certo.

E deu tudo certo. É incrível a sensação de você fazer tudo dar certo e no final você saber que pode contar apenas consigo mesmo para o que aparecer a sua frente.

Nessa altura eu já tinha minha passagem das férias compradas. Seria o meu roteiro e do Yuri, mas dessa vez só comigo. O Yuri não podia (mesmo que querendo muito) ir comigo e não tinha mais ninguém que pudesse. Mas eu nem sabia direito o que estava fazendo, sabe? Tinha comprado a passagem e estava esperando até o dia chegar e ver o que iria acontecer.

Eu cheguei em Buenos Aires de madrugada, morta. Quando acordei no banco do aeroporto, tinha um céu laranja surreal de lindo subindo pelo Río de la Plata, e eu, que vivo pra acreditar em sinais, acreditei naquele e fui com fé.
Cheguei no hostel e era uma brasileira a primeira a falar comigo, me oferecendo um sofá delicioso pra descansar, enquanto o quarto ainda não estava liberado, e um café da manha. Daí em diante foi uma série de bons acontecimentos. Peguei o metrô e desci na estação que queria, na saída que eu queria. Achei uma casa de câmbio com um valor bem legal pra trocar meus reais. Parei num café, consegui Wi-Fi e mandei mensagem pras minhas irmãs e pra minha mãe, dizendo que estava tudo bem, que eu estava bem e eu me sentia incrivelmente bem.

Nessa tarde eu estava literalmente sentada na grama da Plaza de Mayo ouvindo música, conversando com Deus e pensando o quanto que eu estava incrivelmente bem.

Não tem como explicar porque a gente carrega esse medo bobo, de onde ele vem, porque temos medo da solidão e de errar sozinha (a saída do metro, a fala na outra língua, como fazer o pedido no restaurante...) na frente dos outros. Tá tudo bem. Conforme eu fui vivendo, eu fui vendo que estava tudo bem. Não apenas errar (e dar meia volta, atravessar um sinal, e então se encontrar na calçada do metrô que você queria ter descido de fato), está tudo bem fazer tudo isso contando apenas com você mesma. E essa ideia de que isso não tem problema algum, ou erro algum, ou motivo algum pra temer me parece tão simples e boba e leve olhando agora.

Estou em Buenos Aires precisando escrever isso pra mim mesma, tendo ainda só uma pergunta no final. Como nunca fiz isso antes?


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