Te perdi para o mundo

15 de agosto de 2015


Eu tenho um amigo, e eu o conheci antes disso, tenho certeza, mas a memória que vem ao pensar quando o conheci é essa. Da gente sentado, cercado do restante do grupo que nos acompanhava, nas escadarias do elevador do mirante, esperando algum atrasado chegar, para subirmos todos juntos.
Uma das melhores coisas que fiz até hoje foi ter aceitado a minha bolsa de extensão quando meu orientador me apareceu com essa oportunidade. Graças a essa bolsa encontrei um caminho um pouco mais certo que poderia talhar na minha vida e encontrei pessoas. Entre essas pessoas, encontrei você.

Não somos muito do tipo que se entrega com facilidade, só para vida, não para as pessoas. A gente ama pessoas, a gente ama muito, pessoas são incríveis. A gente ama suas histórias, suas características, suas peculiaridades, olhares e abraços. Quase nada é tão bom e quente como uma pessoa. Mas se entregar a elas pode ser algo meio doloroso no meio do caminho, no início, ou no final dele. Não é qualquer um que a gente pode simplesmente amar, com todo o nosso coração grande e verde, e chamar de amigo para compartilhar a vida.

Você não foi uma daquelas pessoas que me entreguei de primeira, e confiei sem ter sido provada antes que poderia confiar. Você poderia ter sido, para falar a verdade, mas não foi. 
Nossa amizade a gente preferiu ir construindo, ir juntando pedaço aqui pedaço lá, até ver nascer e se formar. O carinho inicial veio facilmente e foi o que nos fez olhar um para o outro de forma especial e colocou dentro da gente vontade de querer estar perto.

Sua inteligência me chamou atenção desde o início. Seu bom ânimo e sua vontade de ir a tudo o que estivesse ao seu alcance sempre, também. Sua cumplicidade tão natural, de amar de todo o seu coração e querer o bem a quem você estima e considera. Seu amor pela vida e suas loucuras para se relacionar da sua forma com ela. Suas trapaças e espertezas, que são tão segredos seus, e quando você me solta alguma, sempre sinto nessas horas, que você confia em mim. Seu amor pelo mar, apesar da sua alma gótica. Seu amor pelo Rio, e por Copacabana, e como você se sente tão em casa nesses lugares. Seus sonhos imensos que abraçam o mundo e ele, o mundo, sempre te abraça de volta. Detalhes que te constroem e que me fizeram querer estar perto de você e entrar na sua vida e ir deixando você entrar na minha.

Depois de 20 dias dividindo dia e noite a vida contigo, sem qualquer pausa, entre sol, mar, massagem, jámons e sorvete a cumplicidade só cresceu e eu disse a mim mesma, que você era daquelas poucas pessoas que eu teria do meu lado quando estivesse me sentindo adulta de verdade, morando sem ser na casa dos meus pais, porque eu quero compartilhar a vida contigo. Quero você como meu companheiro de vida que me entende quando reclamo dos problemas de se trabalhar em uma Universidade pública e quero ouvir você compartilhando disso comigo. Quero publicar artigos com você e ter uma bolsa contigo. Quero te ver indo na Austrália e quero que você me veja indo também. A gente tem tanta coisa para viver e observar o outro vivendo. Não coisas só para agora, mas coisas para uma extensão bem grande dessa vida.

Seu aniversário em alguma casa dos vinte, é um momento que trás um sorriso bobo aos meus lábios ao lembrar, pelo local onde estávamos, pelo o que estávamos fazendo, por com quem estávamos, por ser seu aniversário, um que você estava compartilhando comigo, ali e agora, você entende? Porque você chorou no dia, naquela varandinha, sentado segurando minha pequena surpresa, de forma que me surpreendeu. Porque foi um choro tão da alma e tão seu, nosso.
Queria tanto que nosso desejo fosse fácil de ser realizado. Queria tanto construir outra memória maravilhosa como essa em outubro desse ano. Mas a vida vem e dá uns punks na gente de surpresas. Amargavelmente incríveis e dolorosas.
Queria todos os dias 15 de outubro passar do seu lado, em algum lugar desse mundo. Só que a vida adulta é muito difícil.

Hoje, te olhando, enquanto você fazia sua barba, eu tive um daqueles insights iluminados pela vida e percebi que na verdade, não é só a vida adulta, percebi que eu te perdi, há muito tempo, sem nunca ter me dado conta antes. Te perdi para o mundo. 
Todas as pessoas que te amam precisam saber lidar com a saudade e com a alegria que é ter te perdido para o mundo. Há pessoas que nasceram para ele, e você é uma delas.
Percebi que não tem como passar todo o dia 15 de outubro ao seu lado, construindo memórias nossas, porque além das responsabilidades que ambos teremos, também nunca saberemos onde você estará e por quanto tempo. Percebi que preciso aprender a conviver com isso, mesmo que vez ou outra a saudade doa um pouco e a vontade de ficar nas areias de Copacabana contigo sejam maiores que tudo.

Só te peço que por onde quer que você vá leve meu coração verde contigo e volte sempre para aquecer novamente esse que fica apertado, que me fez vir aqui escrever essas palavras.

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