Lusco-fusco

15 de abril de 2015

É muito complicado falar de algo muito bom, como também é muito complicado falo de algo muito ruim. Quando falo de algo que é muito bom para mim pode soar como algo prepotente para quem escuta, e eu acho isso tão ruim, porque só queremos compartilhar aquilo que tá fazendo tão bem a nós. Quando falo sobre algo muito ruim, que está me fazendo mal, fico com medo de estar me expondo muito, de estar falando demais da minha vida pessoal, ou medo de que não serei compreendida. Acaba que falo mais dessas coisas com minhas irmãs, e com pouquíssimos (mesmo) amigos. O que dirá escrever aqui no blog, raramente vem parar aqui.

Dia desses fui dormir e escrevi um post todo na minha mente. Foi uma daquelas noites que os pensamentos me tomaram a mente, me encheram de angústia e até levantei e comentei com minhas irmãs que nossa, eu estava com medo do futuro.
No outro dia pensei em digitar no teclado, de fato, tudo que havia digitado na minha mente na noite anterior, mas não queria me abrir tanto no blog.

Hoje ouvi uma pessoa falando, num vídeo, sobre se sentir plena, naquele momento que você tem um insight e enxerga a vida com um olhar mais ávido e ver o quanto ela é incrível, e que meu Deus, tudo é possível e isso te enche de um sentimento incrível. Foi ai que uma inquietação, já constante na minha vida, aumentou e eu pensei "ok, eu preciso escrever sobre isso!". Porque tem tempos que ando com essa inquietação dentro de mim ao invés desse sentimento incrível.

Sempre falei que os acasos da vida poderiam passear por onde quisessem, menos na minha família, especificamente na vida deles. Os acasos poderiam aparecer na minha vida profissional, universitária, amorosa, financeira, religiosa, em tudo, menos na minha família, obrigada. Mas daí que até parece que temos algum tipo de controle, né?
Sempre enxerguei com nitidez que eu era uma felizarda e sempre fui grata por isso. Normal era eu falar com o meu pai, que nossa a gente tem uma vida incrível.
Porque os problemas até vinham, eles sempre vêem, mas eram nesses pontos onde o acaso podia tocar, onde ele toca e até faz bem e eu consigo enxergar com tranquilidade, mesmo tudo estando um caos ao redor, porque tudo bem, não são problemas que afetam necessidades minhas, ou seja, basicamente minha família, porque se eu os tenho, o resto a gente supera.

Mesmo sendo grata à vida, eu sempre temi que o acaso viesse em um desses pontos que ele não podia tocar. E ele veio...  Me pergunto se alguma vez (na vida de alguém) ele não virá.
Três dias antes do meu aniversário, enquanto voltava do estágio, minha irmã me mandou uma mensagem falando que meu pai teve um avc e eu simplesmente desmoronei. 
Foi por isso que falei tanto, no twitter, que eu queria cancelar meu aniversário desse ano e seguir com meus 20 anos como se nunca tivesse alcançado os 21, porque não senti que alcancei já que não houve qualquer sentimento que remetesse a aniversário no dia 25 de janeiro, dia que nasci.

Desde do dia 22 de janeiro a única que eu faço sentir é inquietação. Aperto no coração. Por isso que o vídeo que vi hoje mais cedo me fez querer vir aqui escrever. Estou com saudades desse sentimento de esplendor que nos toma o corpo quando a gente olha pra vida com bons olhos. 

Eu não sabia direito o que esperar depois daquela mensagem, e acontece que até agora não sei tão bem, sei muito mais, sem dúvida, mas não sei tão bem, e essa incerteza incômoda, e as vezes chega a doer mesmo.
Não dá para eu ficar bem por dentro, me sentir realmente bem com meu pai não estando cem por cento bem.
Ele já saiu do hospital, graças a Deus, e está em casa tem um mês, mas está ainda se recuperando das sequelas, que afetaram a fala e o lado direito dele. Então não dá para conversar com o meu pai como eu fazia antes, eu converso, mas não como antes. Não dá para falar sobre todo e qualquer assunto com ele. Nem dá para ir pegar uma praia no final de semana, coisa que a gente ama fazer.
Recuperação de AVC é lenta, demora meses, até anos. Você enxerga pequenos, pequeninos avanços e já fica feliz. Uma palavra nova, uma mexida no braço e já é motivo de comemoração. E daí que só Deus sabe quando tudo vai se normalizar, pro meu coração se normalizar junto.

Toda vez que ele chora, é o coração que aperta por dentro. Toda vez que mamãe ou irmãs me ligam, é o coração que gela morrendo de medo de ser uma notícia ruim. Toda noite é a mente sem conseguir relaxar.
É todo o dia, todos os dias da semana, a alma nessa inquietude.

E eu nunca me senti assim antes. Sempre consegui olhar para os problemas e relativizar eles, por maior que eles fossem, conseguia fazer minha alma ficar em paz, dizer pra ela que tá tudo bem e ela compreender. Não agora.

Ontem, num show, o Silva cantou: 

"Veja só o lusco-fusco e eu reparo
É o fim do mundo e o que sei
É que eu não sinto mais medo"

Por um minuto eu cantei isso, e eu repeti isso e eu acreditei que eu não precisava sentir medo, que tudo ia ficar bem. Por um minuto enquanto eu cantava eu consegui aquietar minha alma. Então, passou.

De fato eu não preciso sentir medo, especialmente porque tenho Deus. Meu avô já teve um AVC, que precisou até fazer uma operação, e hoje anda, fala, e tem sua personalidade, maravilhosa até. A mãe de uma amiga nossa, também já teve, e chegou até entrar em coma, e hoje dirigi, pinta, vive super bem. E vários casos ao meu redor de AVC foram aparecendo, com suas respectivas recuperações e poquíssimos resquícios de sequela.
Além disso, apesar de AVC ser algo que com acompanhamento as sequelas podem ser revertidas, no caso de ser preciso um milagre ainda tenho Deus que curou minha irmã Ester, no meio de uma oração, quando ela só tinha uma hora da vida, e está até hoje viva sem sequela alguma da meningite que ela teve. Então sim, uma hora, tudo vai ficar bem.

De qualquer forma, mesmo sabendo disso, eu não consigo olhar pro futuro e ignorar o presente, falando pra mim mesma que é apenas uma fase. Que logo, logo vou poder conversar normalmente com meu pai. Que logo, logo vou compreender tudo o que ele quer e fala. Que logo, logo ele não vai ter mais motivo algum pra chorar. Porque agora dói sabe, e as vezes dói muito. E eu não tenho previsão de quando vai parar de doer, quando vai parar de inquietar.

Só passa logo vida, vamos tentar adiantar esse tempo.

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