A melhor época de nossas vidas

30 de março de 2014


Acho que é mal da humanidade ter esse sentimento de que nasceu na época errada, os anos anteriores de alguma forma sempre foram melhores do que os anos que estamos vivendo, do que a década que nascemos. Diante desse sentimento sempre comentei feliz com minhas irmãs que acho que nasci na década certa, e sou feliz vivendo nos anos dois mil. Quando vi Meia-Noite em Paris não me enxerguei no personagem, só concordei com Woody Allen mesmo. 
Acontece que meu saudosismo não pertence a um tempo que não vivi, ele está bem mais próximo. Está no ensino fundamental.

Por mais que eu ame minha vida agora, que eu adore mudanças, ache incrível amadurecer, ame todas as experiências que a faculdade e a vida adulta podem me proporcionar e têm me proporcionado, eu olho para o ensino fundamental com o coração ainda apertado querendo viver aqueles últimos anos no São Jorge novamente, aproveitando de novo, tudo e todos.
Não que eu mudaria minha vida e escolheria parar ali e ficar, se eu pudesse escolher, afinal foi só uma fase da minha vida que fica, e tem mesmo que ficar, para trás como todas, mas é a fase que mais faz pulsar o coração de felicidade.

Adolescente costuma ter uma certa ansiedade para crescer, sair das asas dos pais, ganhar liberdade, e toda essa utopia, acreditando que essa fase é boa sim, mas crescer é melhor ainda. Quando tinha meus 13 anos juro que não pensava dessa forma. Além de depois de um tempo todo mundo criar uma espécie de ódio por adolescente, essa passa a ser vista como a pior fase de todas, a mais difícil de lidar, onde as pessoas não têm um bom reconhecimento com elas mesmas nesse período, período esse que elas costumam morrer de vergonha do que gostavam, vestiam, pensavam, acreditavam, ouviam ou liam.
Óbvio que também sinto vergonha de algumas coisas, mas faz parte, tive prazer imenso nessas coisas hoje detestáveis mas que naquele período eu amei, e sentir vergonha para quê afinal? Mas de uma forma ou de outra eu sabia que aquela fase era incrível, que não teria outra igual e que eu precisava aproveitar. Eu e todos da minha turma, então a gente aproveitava. Mas a gente aproveitava muito.

O Centro Educacional São Jorge, o melhor colégio de bairro de todos os tempos rs, me proporcionou muitas das melhores lembranças que tenho em relação a minha vida e a fase que mais contém amor de todas.
Era um colégio pequeno e não tinha quinta série A (não consigo falar sexto ano...), quinta série B, C, D e E como a maioria dos colégios tem. Era uma turma só e a base daquela turma seria bem dizer a mesma desde a primeira série até a oitava série quando todos teriam que se separar e mudar de colégio, porque não havia ensino médio nele. Então eu estudei 9 anos da minha vida, desde o C.A. até a oitava série, praticamente com as mesmas pessoas. Por mais que em uma série e outra entrasse e saísse um ou outro aluno, o grosso era o mesmo. Isso pode parecer chato, e hoje eu acharia chato, mas isso foi maravilhoso. 
Aquele colégio foi totalmente minha segunda casa, os professores conheciam toda minha família (meus pais iam buscar e levar e minhas irmãs também estudaram lá), e eu conhecia muitíssimo bem os coordenadores e a diretora, e como boa parte do tempo era boa aluna descolava muita bala de graça, convencia-os de pôr CDs que eu levava para tocar na hora do recreio e conseguia arrumar mais bola pra brincar no recreio também.

Eu simplesmente amava aquele pátio! Amava ficar conversando com o Israel, dono da cantina, amava ficar na sala da coordenadora, Dona Vera (que até hoje é mito dentro da minha casa e no meu círculo de amizade do São Jorge) fuxicando os papéis dela e pegando bala. Amava ficar no parquinho matando tempo e aula. Amava aquela quadra que um dia já foi cemitério de animais com todas suas histórias. E amava, de uma forma ou de outra, cada uma daquelas pessoas que formavam minha classe.

Todo mundo passa por fim de ano no colégio com todo chororô cabível e todas as promessas de amizade eterna. Mas acho difícil ver momentos como esse contendo tanta pureza e sinceridade como são as despedidas das oitavas séries do São Jorge. Óbvio que tem todo um carinho especial e imenso que já faz eu olhar de forma diferente, mas é que essa questão de família é tão grande, exatamente por serem aquelas mesmas pessoas durante anos compartilhando da vida umas das outras todos os dias, e que nesse momento a gente sabe que nunca mais será a mesma coisa, que nunca mais teremos outra família como aquela, que por mais que façamos novas amizades não haverá um novo grupo que esteja tão presente no nosso dia a dia, no nosso corriqueiro, de forma tão forte e íntima por longos anos como nossa turma foi, a gente sabe que acabou ali e que foi único e é por isso que todo mundo que chega na oitava série no São Jorge já inicia o ano com sede de viver fortemente, e as melhores lembranças vem desse ano.
Eu gosto da pureza que esse momento da minha vida tem.

Sou grata por todas as fases que já vivi, a fase que estou passando de inúmeras descobertas e anseio por todas mais que virão, porque mudança é bom demais. Mas acho que sempre vou guardar essa vontade de reviver esses anos, porque se eu fosse o Domhnall Gleeson em About Time eu só ficaria voltando loucamente para a primeira década dos anos dois mil.

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1 comentários

  1. Ai que tristeza e nostalgia. Saudades do Seu Israel na cantina dando bala e conversa fora. Sdds tio Ivanildo. Sdds histórias de terror sobre a quadra. Sdds ficar sentada no.pátio. sdds cantar cassiane gritando na hora da entrada. Sdds professora Cláudia dançando macarena. Sdds prof de inglês que quis pular da janela. Sdds loira do banheiro. Sdds do dia que fiquei presa com ester anne e outros no colégio um dia antes da feira de ciências. sdds feira de ciências. Sdds dona vera irritada. Sdds.

    Vou fazer um post em homenagem a esse colégio maravilhoso haja.

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