Meu coração parou e eu nem sei por quem

22 de fevereiro de 2014

Tenho alguns costumes no dia a dia, que tenho pra mim, o deixam mais leve por gerar umas doses de prazer diário. Como por exemplo, sempre me esforço para olhar a Candelária toda vez que meu ônibus cruza a Av. Presidente Vargas pela Av. Passos, porque por mais que a igreja seja a mesma o céu nunca é e isso muda tudo, e gosto de ver como está esse conjunto, céu mais igreja, sempre quando faço esse cruzamento.
Acho que esse costume é muito meu, mas tem outros que sei que compartilho com outras pessoas, como olhar a casa dos outros.
Vamos ser sinceros quem não se sente tentado a olhar para dentro de uma casa ou um apartamento quando a janela está aberta? Quando se tem tantos apartamentos, como os que beiram o Aterro do Flamengo, é quase impossível resistir a tal tentação.

Nessa, de não resistir, é claro, acabei me deparando com um apartamento que passou a gerar mais prazer que qualquer outro.
Meu ônibus vem por Botafogo e sobe um viaduto pra dar uma volta e descer na Urca, na subida do viaduto tem alguns prédios, a maioria tem janelas pequenas de forma que não da pra se ver muita coisa lá dentro, mas tem um que é bem rente ao viaduto e um tem janelão de uma ponta a outra, e o apartamento que fica na mesma altura que meu ônibus quando passa ali está sempre com as cortinas escancaradas.

Só isso já é o suficiente para me fazer ama-lo. Amo o simples fato da pessoa que mora ali pouco se importar que as inúmeras pessoas que passam em seus carros, motos ou dentro dos ônibus possam ver toda sua casa e vê-lo também nos seus atos tão íntimos do dia a dia.
O apartamento é daqueles agradáveis por parecer aconchegante, com seus móveis em madeira antiga, sem qualquer televisão de LED pendurada na parede mas uma de vinte e nove polegadas com seu turbo preto em cima de uma estante de madeira escura.
No centro, bem em frente a janela que vai de ponta a ponta, tem uma mesa com um conjunto agradável de cadeiras.
É nessa mesa que um senhorzinho tem o costume de tomar o seu café da manhã e eu tenho o costume de observá-lo fazer seu ritual matinal, o horário que ele o faz costuma bater com o horário que meu ônibus passa pelo viaduto.
As vezes quando me atraso e acabo passando depois do café o nosso encontro acontece na sacada de sua janela, quando o senhorzinho se encosta sobre ela e fica a admirar a vista que ele tem a honra de ter de sua sala. Toda a praia de Botafogo e a vista da Urca.

Nos últimos semestres meu horário tem andado mais louco do que nunca e eu tenho andando dando menos importância pra certos costumes que sempre levei comigo, meus encontros com o senhorzinho foi um desses, e por causa do meu horário muitas das vezes esse encontro era impossível, sempre passava muito antes do café ou muito depois.

Essa semana, estava atrasada mais que o de costume e acabei pegando o ônibus em pé mesmo.
Lá estava eu dentro do ônibus, ainda de pé, quando ele subiu pelo viaduto e eu fui olhar o apartamento que estava até com saudades de vê-lo e ver como as coisas estavam. Acontece que as coisas estavam de tal forma que quando olhei para dentro do apartamento mal acreditei, que na curva que vem logo em seguida tive que fazer um esforço para segurar mais forte no ferro e não cair para trás junto com o balançar do ônibus, fiquei com uma cara de incrédula ainda por um tempo sem conseguir acreditar que ali dentro daquele apartamento onde tantos cafés da manhã aconteceram as 8h da manhã, estava tudo empacotado e eu não conseguia mais ver os móveis de madeira (a não ser as pernas de alguns que não estavam completamente cobertos), não conseguia mais ver a TV com seu turbo preto ou a minha querida mesa com o conjuntinho de cadeiras.

Há quanto tempo eu não vejo o senhorzinho no seu ritual matinal e doeu saber que nunca mais o verei. Esse momento simples de algumas das minhas manhãs sempre conseguia fazer sair um sorriso bobo de mim, mas hoje o que saiu foi outro aperto, ao passar novamente pelo viaduto e ver que as caixas continuavam por lá ao invés do senhorzinho para os nossos encontros matinais.

Criei um carinho por esse costume e agora me abateu uma surpresa por vê-lo indo assim embora sem nenhum aviso prévio, junto com uma dorzinha, que nem sei para quem ela se volta.

You Might Also Like

2 comentários

Instagram