Meninas direita, meninos esqueda. Agora!

26 de outubro de 2012

Só tinha que falar "Corram para o carro, meninas corram para o carro. Meninos, aqui. Agora!"

Ter que esconder um terço da sua vida não é tarefa fácil, sei bem disso e tento fazer da melhor forma possível. Para uma universitária que tem o seu dia-a-dia bem exposto como eu então. Mas tenho sorte, uma amiga minha, tem a mesma tarefa árdua, mais árdua do que a tarefa só mesmo o que precisamos esconder.
Dois terços das nossas vidas (a minha e a dela) se resume em amigos, faculdade, família e no caso dela, trabalho, o que sobra se resume em trabalho, no caso para nós duas. Trabalho que expõe nossas vidas, nossa tarefa aqui é manter nossas vidas a salvo e ajudar a salvar outras.

Como disse a tarefa é difícil, tento manter esse terço da minha vida de forma mais particular possível, para os outros esse terço é ocupado com bobagens, internet e filmes, o que tento parecer bem real criando perfis em todas as redes sociais possíveis e penando para os manter atualizados. Mas esconder isso dos mais íntimos é quase que impossível, imagine ter um namorado tendo que esconder dele a parte mais intensa da minha vida, que mais me dá trabalho e que põe minha vida em risco? Por isso prefiro nem ter um. Mas já uma grande amiga.. Como não ter uma? Essa claro, sabe desse outro lado, coisa impossível de esconder dela, e na verdade, que bom! Tem horas que é sufocante não falar sobre isso, e com a família é mais impossível ainda, meus pais ficam mais tensos que eu que passei pela experiência, causar isso neles não me faz bem, não faz bem a ninguém para ser sincera, então nessa hora entra uma grande amiga, que por mais que me ame, consegue ouvir tudo sem quase morrer ao mesmo tempo.

Mas dessa vez a coisa foi mais longe. Nessa tarefa o Brasil todo ficou sabendo, a coisa foi grande, a notícia foi matéria em todos os jornais, e a tal grande amiga com quem compartilho tudo teve que ouvir toda a tarefa por meio da mídia e não por mim, o que dava um aperto no coração dela maior do que eu posso explicar aqui, o que a deixava tensa, porque ela ouvia a história enquanto esta acontecia, e não por mim depois de tudo já ter acabado, viva, contando a ela.

Eu e A.P., a tal amiga que falei mais acima, aquela que também tenta esconder um terço da vida dela também, tínhamos que subir o morro, e lá tudo ia acontecer. Saímos de casa como sempre, dando uma desculpa para todos que não fossem nossos familiares, entramos no carro preto e então tudo começou. A outra vida veio a tona e dessa vez a missão era só essa: Subam, coloquem as meninas para a direta, mande entrarem no carro. Os meninos a esquerda, dentro do ônibus. Calma. Atenção. Fiquem a espera do sinal.

Todo mundo sabia que não seria assim tão fácil, todo mundo por dentro estava tentando se manter calmo, mas na realidade estavam todos é tensos, mais tensos do que nunca antes por dentro. A espera do sinal era a espera do incerto, a espera pelo o quê? A gente que ia fazer acontecer.
A missão na fala é simples, só temos que colocar as meninas dentro do carro, que estarão do lado direito, e os meninos, dentro dos ônibus, do lado esquerdo. E sim, estamos falando de crianças, pense sobre. A questão é que de todos os lados teriam coisas acontecendo na tentativa de tirar nossas vidas.

Assim que o sinal foi dado, subimos, a tensão não foi em vão. Subir tentando salvar nossas vidas foi tarefa difícil, só conseguia pensar nas crianças, então comecei "Vocês meninas, lado direito, direito! DIREITO AGORA! No carro! ENTREM!" "Não meninos, no ônibus, vocês para lá! CORRAM!"

Saber lidar com criança não é fácil, em situações como essa aonde existem pessoas espalhadas por todos os lados tentando tirar a vida delas e nós temos que salva-las é pior ainda, quem ousa explicar isso? Como colocar calmaria em um ambiente desses? As crianças, especialmente as meninas, choravam desesperadamente e ficavam perdidas de tal forma que tentar organizar essa bagunça piorou tudo.
Atravessei a rua correndo, tentando levar com os braços quantas meninas podia para o outro lado "No carro, corram, entram. Não, ali, no carro!"

Só sentia o risco, e tinha que tirar isso da minha mente, se concentrar, "terminar a tarefa e sair dali o mais rápido possível" era isso que eu deveria pensar. Minha vida em alguns momentos continuou a existir por pouco. Mas foi.

Quando estava pronta para descer com o carro, olho para trás como sempre devo fazer para me certificar que realmente devo ir, vejo umas meninas chorando fortemente correndo em minha direção ao mesmo tempo que ouço "Esperem, tem mais, esperem!". Saio novamente, o coração aperta, elas entram no carro. A gente parte.

Explicar o alívio é tão difícil quanto explicar o aperto do coração da minha grande amiga, amiga a qual não saia da minha mente. Havia prometido a ela que assim que terminasse essa tarefa iria vê-la.

Desci, em meio a um caos midiático, deixei as crianças a salvo, troquei de carro e fui a procura dessa amiga. Ao meu lado meu pai, tranquilo, para me deixar tranquila. Agora já podia tirar a roupa preta e voltar a viver os outros dois terços da minha vida.

Fui ao endereço que minha grande amiga havia me dado. Desci do carro suando, não conseguia me controlar, pedi a mulher que veio ao meu encontro para chamar minha amiga "Ah sim, ela esta realmente a sua espera.". Mas nem é preciso o esforço, lá estava ela com as mãos contra o peito, o rosto vermelho, a boca apertada, os olhos cheios de lágrima, o coração na boca, era capaz de sentir. Passou pela minha cabeça o quanto ela devia ter ficado angustiada vendo todo aquele caos através da TV, sabendo que eu estava dentro dele, ajudando, porque não, ele acontecer. Pude sentir o alívio dela ao me ver, ao caminhar em minha direção, ao estender os braços em minha direção, e finalmente chorar, poder chorar ali comigo. Aquela amiga que sempre ouviu tudo de forma tranquila, fazendo o papel de amiga de uma universitária que trabalha para uma agência secreta e que precisa ouvir tudo sempre fingindo que ela ter esse trabalho é a coisa mais normal possível.

Ali ela simplesmente fazia o papel da amiga de uma universitária, ela esquecia um terço, na verdade ela esquecia os dois terços também, ela só pensava em uma coisa, minha vida. Que ainda estava ali, eu ainda existia. Eu ainda existia, e isso me fazia chorar, isso nos fazia chorar. Um dos choros mais sinceros de nossas vidas, acompanhado de um abraço no peso de pernas fracas que precisavam estar apoiadas no chão para aguentar tamanha emoção.

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